Goa Trance: Da Índia para o Mundo

História

No final da década de 60, em busca de lugares com temperaturas mais agradáveis e novas experiências espirituais, hippies da Europa e Estados Unidos descobrem em Goa um paraíso indiano.

Nessa onda riponga colando em peso no pequeno estado de Goa, na Índia, muitos jovens aficionados por música levam consigo sons que faziam sucesso na época: rock, folk, acid-music e mais tarde a música eletrônica.

Goa é o menor estado indiano, situado na costa-oeste do país. O clima da região, na média de 20ºC a 30ºC, as cores vivas da cultura indiana presentes e a população local, conhecida por ser muito receptiva, bondosa e tolerante, são alguns dos principais fatores que atraíam gente de fora, principalmente na época do inverno europeu e norte-americano. A capital é Pangim, mas é a praia de Anjuna o local mais citado nas histórias do movimento hippie e do nascimento do Goa trance.

Goa tem uma característica ainda mais curiosa: muita gente do estado fala português! Sim! Isso porque até 1960, o estado era uma colônia de Portugal. Atualmente, o idioma oficial do estado é o concani – que inclusive, contém vários termos de origem lusitana – e a língua de comunicação é o hindi (idioma nacional). 

Após a descolonização, o estado passou por um período de escassez de recursos financeiros. Em contrapartida, isso contribuiu para a cultura de desapego material da população local, outro fator que tornava Goa um lugar atrativo para a galera de movimentos ideológicos alternativos de outros lugares do mundo. 

O trance indiano começa a tomar forma

A partir de 1970 e durante quase uma década, os sons eletrônicos que predominavam nas pistas de Goa tinham características pesadas e que imitavam sons de máquinas como serras elétricas e furadeiras. Mas é a partir dos anos 90 que acontece a fusão das batidas eletrônicas com a psicodelia do rock e outros elementos de influência indiana, tornando os sons mais alegres. As festas passam a durar cada vez mais tempo e migram de clubes fechados para espaços a céu aberto, dando mais liberdade para que as pessoas transcendessem na união entre música e dança.

Com os eventos de música eletrônica já bastante populares em Goa, o governo local se descontenta pelo fato da região começar a ganhar fama internacional como destino turístico para uso de drogas psicodélicas, ato que era comum nas celebrações musicais que aconteciam por lá, uma vez que o povo de Goa era bastante tolerante em relação a manifestações de liberdade e contracultura, como o uso de substâncias psicoativas, por exemplo. 

Na tentativa de estancar tal reputação, as autoridades locais passam a repreender qualquer tipo de festejo com tais características. Porém, comprovando a ideologia de resistência do movimento, as festas de música eletrônica começam a acontecer em lugares secretos, que não chamassem tanta atenção, o que levou naturalmente o rolê da música eletrônica, já naquela época, a progredir numa pegada underground.

O termo trance, de origem inglesa, em português significa transe. O uso da palavra para designar tal estilo de música decorre dos movimentos progressivos e repetitivos do som, tanto na melodia quanto nas batidas, o que facilita aos ouvintes alcançarem estados meditativos de alto nível, principalmente se somado aos movimentos de dança.

Com BPMs que variam de 132 a 142 (mas podem variar entre 100 e 160 nas produções mais atuais), o Goa trance é uma mistura melódica com beats contínuos. O gênero combina os efeitos eletrônicos com elementos de origem indiana, por exemplo, como trechos de mantras do hinduísmo. 

As características sonoras recorrentes, tanto na melodia quanto nas batidas, fazem do Goa trance, desde seu nascimento e ainda hoje, um dos estilos musicais eletrônicos mais adotados por aqueles que buscam atingir estados de consciência e espiritualidade elevados.

A partir de 1990 o Goa trance, assim batizado por ter nascido e crescido com suas raízes no estado indiano, alcança popularidade em lugares como Europa, Israel e Brasil, através de viajantes amantes da música. A galera tinha contato com o que rolava de trance lá fora e levava para outros países as novas tendências. Aos poucos, começam as festas de música eletrônica regadas a Goa trance e as reuniões de 200 pessoas passaram a ser festivais com milhares.

Pouco tempo depois da chegada do Goa trance a demais pontos do planeta, a vertente perde força com a transformação do gênero em subvertentes, que chegaram acompanhadas de novas tendências tecnológicas da época, com sons mais carregados de efeitos de sintetizadores digitais e analógicos e resultados mais dançantes. O reformulado psychedelic trance também logo se desdobraria em mais subvertentes como Full on, Prog trance, e outros. 

Mas, assim como outras expressões artísticas vão e vêm em voga, estilos musicais também passam pelo mesmo. O Goa trance volta a conquistar popularidade em meados de 2007, com produtores reinventando seus sons através de remixes e novas tecnologias de produção musical.

Um mestre sagrado chamado Goa Gil

Gil, que já era músico antes de se tornar famoso como DJ, foi pra Goa no verão de 1969, com 18 anos, em busca de novas experiências de vida. Lá, além de despertar sua espiritualidade e consciência, acabou se aproximando dos sons eletrônicos e tornando-se um dos primeiros a dar início ao estilo. Mais a frente, o próprio músico se tornaria famoso com o codinome Goa Gil, em alusão ao seu vínculo com o paraíso indiano e com o gênero Goa trance.

Mais do que ser uma figura crucial pro nascimento e disseminação da vertente, Goa Gil é um personagem especial. Além dos equipamentos básicos que todo DJ precisa pra tocar, o setup dele tem detalhes pessoais que o ajudam a atravessar as infinitas horas de música – algumas apresentações dele chegam a 24 horas de duração, ou mais! Ao lado de caixas de som, incensos, pequenas estatuetas e outros apetrechos transformam a cabine do DJ num altar com objetos sagrados para o Baba – como é chamado por muitos adeptos ao trance. 

Além disso, Goa Gil é artista raíz: até hoje utiliza fitas DAT (Digital Audio Tape) pra construir seus sets. São fitas cassete dos anos 80, um dos formatos de gravação de áudio mais antigos, que servem como fonte musical para as mixagens. O DJ americano já está na casa dos 70, e mesmo com seus dreads grisalhos, continua atrás das cabines levando o Goa trance a festivais ao redor do globo.

O time de precursores do Goa trance também contou com outros nomes importantíssimos pro desenvolvimento da vertente e responsáveis por semear o gênero musical em vários lugares do mundo. Entre eles, os franceses Laurent e Fred Disko, o neozelandês Ray Castle e Raja Ram, da Austrália (este último com a banda de Goa trance chamada “Infinity Project”). Também aparecem muito na história do Goa nomes como Astral Projection, Shiva Shidapu (que viraria Infected Mushroom mais a frente), Hallucinogen, Etnica, entre outros. 

Atualmente, entre os artistas mais citados na comunidade trance estão: Filteria, Celestial Intelligence, Goasia, Imba, Mindsphere, Morphic, Resonance, Shakta e Triquetra. No Brasil, o DJ Rica Amaral é um dos artistas mais lembrados por ajudar a trazer as sonoridades de Goa (já se desdobrando em Psy trance). Nos charts de DJs brasileiros mais em alta no momento, Psychowave é um dos nomes mais aclamados. 

O trance, em especial o goa, é uma engrenagem musical perfeita: seus ruídos sintéticos, de mãos dadas  a timbres orgânicos, fazem desse gênero musical uma experiência de elevação física, mental e espiritual. É o tipo de arte que comprova o papel da arte, em si: envolve, eleva e extasia. O ritmo germinado em terras sul-asiáticas se espalhou pelo mundo, quiçá planeta afora, conquistando não só o merecido espaço nas pistas eletrônicas, mas também a alma daqueles dispostos a se entregar e dançar.

TEXTO: ANNABEL GRIGNET

Redatora oficial do Cognição Eletrônica, jornalista inquieta, discente em Música pela UNILA e foliã na cena eletrônica da fronteira de Foz do Iguaçu.