Know-how: Franco Cinelli

Entrevista

Entre os principais nomes da música eletrônica atual, Franco Cinelli é um dos DJs e produtores mais aclamados tanto no seu país de origem quanto mundo afora. Natural de Rosario, região central da Argentina, Franco respira música desde que ainda dormia no berço, e traz consigo essa imersão musical no seu dia a dia até os dias de hoje. 

Sua carreira, já celebrando mais de 20 anos de estrada, se deu de forma natural, como ele mesmo relata, cheio de orgulho e entusiasmo na voz. Louco por discos de vinil, possui ele próprio lançamentos no formato analógico que ultrapassam a marca dos 30. Entre eles, se destaca “Picaro EP”, álbum que entrou na lista top 50 da revista Groove, de Berlim, produzido com Bruno Pronsato em 2005. 

Franco, com toda sua expertise adquirida ao longo dos anos, extrai das horas dentro dos estúdios obras primas, e oferece aos DJs e compositores iniciantes conselhos simples, porém certeiros: mergulhar em muita música, todo tipo de música. 

Em meio à lista farta de projetos nos quais está envolvido atualmente, Cinelli proporcionou ao Cognição Eletrônica um espaço da sua agenda para uma conversa descontraída e repleta de ideias valiosas.

ANTES DE COMEÇARMOS, DEIXAMOS AQUI O SET QUE O FRANCO PREPAROU ESPECIALMENTE PARA ESTA ENTREVISTA — DÊ O PLAY E BOA LEITURA

CE: Você produz música já há bastante tempo. Como funciona o processo criativo pra você? Tem algum momento especial em que as ideias fluem com mais facilidade?

Franco: Normalmente, uma vez que eu entro no estúdio, é muito espontâneo; estar no estúdio é basicamente a parte central do meu dia a dia. De repente começo a ouvir música, como faço todos os dias desde a hora que acordo, e alguma coisa que eu ouça – e olha que eu escuto de tudo, não somente música eletrônica – começa a me despertar algo, aí automaticamente ligo todos os equipamentos que tenho, começo a brincar e fazer a junção de sons e assim vai fluindo.

…Você escuta música realmente todos os dias?

Sim, todos os dias. Algumas vezes, sobretudo quando estou trabalhando continuamente em ideias específicas, me levanto e fico umas duas ou três horas sem ouvir absolutamente nada, porque já venho acumulando horas ouvindo muita coisa. Também aproveito esses momentos nas manhãs pra dar um descanso ao ouvido. É muito importante o ouvido estar bem descansado tanto na hora da produção quanto na mixagem, pra ter a audição bem desperta e com isso conseguir mixar bem, escutar os detalhes e tudo mais.

Desde que começou na produção musical até hoje, o que mais mudou tanto nas técnicas quanto no seu processo criativo?

Tem muitos músicos que sentam em frente ao teclado, sintetizador ou piano e começam pela melodia, por exemplo. Já eu começo às vezes pelo background, ou às vezes pelo ritmo, ou por uma linha de baixos, oscila muito. É assim desde que eu comecei a produzir, porque me parece mais livre; é como deixar o corpo sentir e se expressar. Tem situações que vou preparado pra criar uma canção completamente ambiental e termino em outro lugar, com uma coisa nada a ver. Isso é sempre bom, deixar que esse tipo de coisa aconteça, porque se você realmente tivesse pensado, talvez não tivesse saído de tal maneira.

Não faz muito tempo, você comentou sobre a importância de que DJs escutem muita música se atentando para o lado da composição musical; não necessariamente para que se tornem produtores, mas porque é um exercício fundamental. Há algum método ou dica pessoal que daria a artistas iniciantes para essa prática?

Acredito que tanto para o DJ quanto para o produtor é muito importante escutar diversos estilos de música porque, de 100%, creio que mais de 50% vem do que você escuta, do que você nutre seu ouvido. Isso tudo vai ficando na sua cabeça e vai gerando um background no seu corpo, e depois se converte no seu modo de expressão, no que você vai pôr para fora. Então é muito importante escutar de tudo, sem ficar plantado numa coisa só, pois do contrário, seria como ver o horizonte em pequenos centímetros de vista.

É muito importante o ouvido estar bem descansado tanto na hora da produção quanto na mixagem, pra ter a audição bem desperta e com isso conseguir mixar bem, escutar os detalhes e tudo mais.

E quanto à seleção musical, quais principais detalhes você considera que um DJ precisa zelar na busca pela construção de um bom set?

Esse tema é muito amplo, depende muito de como cada um está acostumado. Tem muita gente que trabalha muito qual música mixar com qual, pra que a harmonia fique perfeita, e pra que a progressão da mixagem seja impecável. Tem outros que vão completamente livres, sem saber com o que começar, nem com o que desenvolver e nem com que terminar. Eu me inclino muito mais a essa segunda opção, mais livre. Mas acredito que essa é uma linha que se consegue seguir com o passar dos anos, quando você vai conquistando muito mais confiança, escutando muito mais música, já sabe bem qual tema tem em cada disco e tudo mais. O jeito que eu trabalho quando vou levar música a um evento, a uma festa, é me influenciar 100% do que as pessoas me dão e do que está acontecendo naquele lugar. Posso ir com um monte de ideias na cabeça, mas no momento que eu tenho que tocar tá rolando uma situação totalmente diferente com as pessoas, e seria muito frio cortar uma história que está acontecendo apresentando algo que não tem nada a ver, rompendo a frequência. Eu não dou continuidade a algo que está acontecendo, mas sim crio algo com base no que eu sinto naquele momento. Paro na cabine, começo a sentir um pouco, escuto o som e digo “Certo, quero começar com isso!”. É uma questão de diálogo com as pessoas e com o lugar. Nós (DJs) somos comunicadores musicais, e para comunicar bem é preciso estar influenciado por uma situação que esteja acontecendo no momento, seja numa festa, numa rádio, ou qualquer outro lugar. Isso é básico.

No começo da sua carreira, você já sabia onde queria chegar ou por quais caminhos queria percorrer?

A verdade? Eu nunca soube de absolutamente nada. A real é que eu tô nisso tudo por causa do meu pai. Ele foi engenheiro de áudio, tinha a oficina onde fabricava equipamentos de som, mixers, woofers, sistemas de áudio pra discotecas, para estúdios, para músicos, para audiófilos – que são as pessoas que gostam de escutar música em casa. Então automaticamente sempre estive conectado com a tecnologia e com a música. Eu com zero anos de idade já estava metido nesse meio com meu pai. Então eu não cheguei pra ele e pra minha mãe e disse “Quero ser arquiteto”, por exemplo. Eu sempre estive inserido nesse universo, muita música na minha casa, meus pais escutavam muito, então fui consumindo isso desde muito pequeno e as coisas foram acontecendo. Depois de grande, sim, eu realmente queria fazer isso, mas o começo foi inconsciente, natural. Nos finais de semana meu pai geralmente ia aos clubes para os quais ele fazia a sonorização, pra verificar se estava tudo certo, então desde meus 10 anos, mais ou menos, e talvez até menor que isso, eu ia junto com ele e ficava na cabine do DJ vendo como tudo funcionava, sonhando! Nos anos 80 era uma coisa impressionante, tudo isso obviamente gerou um grande impacto em mim.

“Nós (DJs) somos comunicadores musicais, e para comunicar bem é preciso estar influenciado por uma situação que esteja acontecendo no momento, seja numa festa, numa rádio, ou qualquer outro lugar.”

Na sua trajetória de mais de 20 anos com a música, existe algo que gostaria de ter feito de forma diferente?

Talvez tivesse dedicado mais tempo a estudar música, em si, tocar três, quatro instrumentos, e também tivesse dedicado mais tempo à parte eletrônica. Meu pai como engenheiro me ensinou muito. Ele me viu desde muito pequeno alucinado com tudo isso, em certo momento começou a me fazer perguntas como “O que é que você gosta nisso tudo? Como você se sente em relação a isso?”. Ele me apoiou totalmente. Quando comecei a tentar combinar um disco com outro automaticamente me vinha à cabeça, “Como foi feita essa música?”. Então comecei a perguntar pro meu pai e ele começou a me explicar como era o processo da composição musical, como era o processo do estética dos sons, das mixagens, e assim, pouco a pouco, cheguei até aqui. Meu pai e seus amigos que eram músicos, DJs e toda galera que tinha a ver com a música, se juntavam para jantar ou almoçar ou somente pra ouvir música, e eu tava ali no meio, então eu me nutria muito disso. Falavam sobre coisas que hoje posso dizer que entendo, e disso estamos falando de 40 anos atrás (risos).

Qual a dica mais valiosa que você daria a jovens DJs ainda no início da carreira?

O conselho que posso dar a qualquer um que comece a se aprofundar mais no mundo da música é, principalmente, escutar muita música. Não somente escutar, mas pegar a capa dos discos, ler sobre os produtores, os selos, pesquisar por que esse disco foi feito assim… Todo disco tem uma história, então investigar a história, o gênero… É muito importante estar bem fortalecido no assunto e entender do que a música é feita.

Depois, é claro, se você vê que gosta de produção musical, é muito importante estudar música. Pode ser um instrumento, piano, bateria. Tudo isso te abre portas e gera um espectro gigante. Se esse tipo de aprendizado não é estimulado, é muito limitador, porque você fica somente com o que você sente e conhece, e nada mais; é como pegar o jornal e ficar lendo somente a página principal. 

Em terceiro lugar, é a questão técnica, a parte eletrônica em si. Por que um sintetizador é um sintetizador? Por que um equipamento de ritmos é um equipamento de ritmos? Por que tem um aparelho que se chama sampler? E mil e uma coisas. Uma vez que uma pessoa comece a se meter mais naquilo que gosta, vai descobrir um caminho que é eterno, gigante. 

No início de 2019 você e Ricardo Villalobos se apresentaram juntos no festival Unum, num B2B de 7 horas. Sabemos que vocês já cultivam uma relação de amizade há muitos anos, mas gostaríamos de saber como foi pra você dividir pela primeira vez a cabine com ele…

Foi uma experiência inesquecível e única. Primeiro porque já nos conhecíamos há muito tempo, e já tínhamos estado juntos em muitas festas, mas nunca tínhamos tocado juntos como b2b. Foi como se nos conhecêssemos por toda vida e já tivéssemos feito isso mil vezes. O Ricardo tem algo muito à favor, à parte de ser um músico e DJ sensacional, que é o fato d’ele ser muito relaxado. Ele permite que as coisas fluam, então sempre nos conectamos muito bem por isso. Foi tipo, “Ok, vamos começar”, “Ok, começa você”. Então ele super relax tocou uma, depois eu mandei outro tema, e assim fomos por 7 horas. Para nós, foi como se tivessem passados duas horas. Fazer back to back não é fácil. Penso que para que realmente fique bom, primeiro tem de existir muito respeito entre as pessoas que estão tocando. Segundo, é preciso que elas estejam conectadas musicalmente, caso contrário, cada uma contará uma história diferente. E é claro que também é essencial um bom sound system, que se respeite esse sistema de som, e para isso é preciso ter um pouco mais de consciência de questões técnicas, de como soa o áudio, quanto volume há, etc.

Você e Villalobos têm algum projeto em conjunto em andamento do qual possa nos contar mais a respeito? Planos para repetirem o b2b no futuro?

Eu e o Ricardo estamos com muita vontade de repetir esse back to back, até porque ia rolar de novo no Unum Festival, que seria no final de maio de 2020, mas obviamente foi cancelado pela situação atual da pandemia. Em março íamos fazer uma festa com Raresh, Ricardo e eu, em Buenos Aires, mas também está pensada para reprogramar. 

Justamente falando sobre esse assunto (pandemia e distanciamento social), acho que temos que ser pacientes, porque tudo o que estamos vivendo é algo que ninguém nem sequer sonhou, então temos que nos cuidar e poderemos sair dessa todos juntos.

“Fazer back to back não é fácil. Penso que para que realmente fique bom, primeiro tem de existir muito respeito entre as pessoas que estão tocando. Segundo, é preciso que elas estejam conectadas musicalmente, caso contrário, cada uma contará uma história diferente.”

Quais suas lojas de disco favoritas ao redor do mundo?

Tem tantas… poderia citar milhares! Mas vou falar das lojas aqui da Argentina que gosto muito. Uma é a House Records, que fica em Buenos Aires, outra é a La Montaña Discos, aqui em Rosario, e tem outra que se chama LP, em Cordoba. Todas essas vendem não somente música eletrônica, mas de absolutamente de tudo. Amo ir a lojas de vinil. Para mim é como uma biblioteca, mas ao contrário, uma biblioteca onde se pode falar. Cada vez que vou a uma destas, mais do que ouvir as músicas que gosto, é ótimo olhar vários discos. É legal que você ouça um monte de outros gêneros musicais, se aprofunde, escute, porque o melhor que pode acontecer a um DJ é se meter numa sala imensa cheia de vinis e começar a fuçar coisas desconhecidas. A energia que se cria nesse tipo de lugar é fascinante. O que também gosto muito é que quando você vai a uma loja de discos e está cheia de gente que você não conhece, pode ser que essas pessoas estejam na mesma frequência que você, e de repente alguém pega um vinil, te mostra e te diz “Já ouviu esse?”, e automaticamente se cria uma conexão musical, e quem sabe você termina realizando várias coisas com essa pessoa até então desconhecida. Talvez seja alguém superinteressante que você pode conhecer através de um disco.

Como um DJ e produtor sul-americano já há bastante tempo ativo no mundo da música, qual visão tem sobre o cenário musical de outros continentes? Como você acha que as diferentes culturas influenciam o consumo de música em cada lugar?

Que boa pergunta! Cada lugar tem sua cultura, é óbvio, importada pelo tempo, e tem uma forma de sentir e ver as coisas. Eu, por exemplo, posso ir um final de semana tocar no Paraguai, outro no Brasil, depois um mês inteiro na Europa, e cada lugar tem seu toque especial. O interessante é poder ver e sentir todas essas diferenças, estar sempre em contato com as pessoas, se relacionar com o público e artistas, tudo isso agrega muito. Na Argentina temos muita semelhança com os italianos na forma como apreciamos a música, somos pessoas muito passionais e de demonstrar quando gostamos. Agora, a cultura alemã em comparação com a nossa, por exemplo, é muito mais tranquila. Não é que eles sejam frios, é nós que somos muito mais ‘fogosos’. Cada um tem seu jeito. Mas no final, acho que o mais interessante dessas diferenças é se influenciar um pouco de cada coisa, pois sempre, em qualquer lugar que você vá, sempre haverá algo que te interesse.

Na sua opinião, quais países da América-Latina tem uma cena de música eletrônica bem expressiva atualmente?

Argentina é muito forte, tem uma cena grande, muito potente, e está com um fluxo de produtores e DJs da nova geração mesclado com o da geração não tão nova muito grande. É claro que não se pode esquecer do Uruguai, onde há uma cultura musical impressionante, as pessoas são divinas, os DJs são incríveis. O Chile também tem seu lugar, com Ricardo e Luciano, Cristian Vogel, e muitos outros. Esses artistas do Chile interpretaram a história de uma maneira a expressar-se com uma música que revolucionou muito o mundo da música eletrônica. O Brasil também tem um monte de artistas incríveis, e tem algo que é impressionante que é a cultura musical muito forte e bonita, e que é o motivo pelo qual produtores de outros lugares do mundo ficam loucos. Tenho amigos alemães que nunca tinham escutado música latina no geral e depois que descobriram, nunca mais pararam de escutar Bossa Nova e tudo mais.

Você se divide em diversos projetos diferentes, como o b3b Fluss com Mariano e Jorge Savoretti, a label PsyFunk, o pseudônimo PsyNote, o trio F.E.L. com Estevan Gutierrez e Leonardo Andres, e o Greener Live, projeto de ambient con André Zacco. Pode contar um pouco como está cada um deles atualmente?

Estou trabalhando literalmente com todos estes citados. Alguns dias trabalhamos com o F.E.L, eu, Esteven e Leonardo; temos projetos muito legais. Basicamente o que eu faço é música em vinil; tenho uma porcentagem em formato digital, mas é muito pequena, o que sempre gostei é que as pessoas me conheçam através do vinil. Mas é claro que devido ao que estamos vivendo no momento, o vinil é um dos formatos mais afetados. Graças à tecnologia e à plataforma Bandcamp vamos disponibilizar toda discografia do F.E.L. e adicionar também um disco de remixes, que vai também com remixes de Jorge Savoretti, Mariano e Alan Castro. Também vamos fazer algumas coisas com Ernesto Ferreira, que é um amigo de Córdoba e mora em Berlin. Temos a ideia de fazer um disco com uma canção bastante antiga do Ernesto, e vamos disponibilizar em vinil e no digital. 

Também estou fazendo vários remixes, tanto com meu nome como pelo PsyNote. Além disso disso tenho projetos para fazer compilações pro meu selo PsyFunk, e a ideia é lançar no digital pra que todo mundo tenha acesso. Com o Fluss acabamos de terminar um álbum, e com André Zacco, com o projeto Greener Live, estamos com muita vontade de criar coisas novas. Por mais que agora não possamos sair pra tocar ou viajar, estou em mil projetos ao mesmo tempo, e em vários outros mais que não estou contando agora porque são ‘surpresa’. Também estou produzindo um disco estilo ambient, que até vai mais para o lado do Techno, mas não o Techno que se escuta numa pista de festa, e produzindo também o que costumo produzir normalmente, House, Electro, e essas coisas.

Dentre os inúmeros momentos que já viveu através da música, poderia citar um que foi muito especial pra você, e que gostaria de vivenciar novamente?

Todos! Se eu fosse eleger qualquer ponto específico da minha carreira que gostaria de viver novamente, seria porque cheguei nesse ponto com um montão de coisas antes, então tudo foi especial.

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TEXTO: ANNABEL GRIGNET

Redatora oficial do Cognição Eletrônica, jornalista inquieta, discente em Música pela UNILA e foliã na cena eletrônica da fronteira de Foz do Iguaçu.