Technoviking – O Meme que foi Parar na Justiça

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Se você é fã da música eletrônica e já tá no rolê há certo tempo, provavelmente conheça a imagem de um homem de aparência de pirata nórdico, dançando techno em frente a uma câmera nas ruas de Berlim – queremos relembrar o meme icônico do Technoviking e abordar um outro lado dessa história. 

No ano 2000, acontecia na capital alemã a Fuckparade, uma manifestação de rua underground ao som de muito Techno Berlim que surgiu como uma espécie de protesto contra a “Love Parade”, festa de cunho mais comercial que também é celebrada nas ruas da capital alemã. 

Nessa ocasião, Matthias Fritsch, um dos integrantes da parada musical, grava despretensiosamente um vídeo de cerca de quatro minutos. Nas imagens, aparece parte da galera que acompanhava a parada, dançando e percorrendo aos poucos o caminho da Fuckparade. Mas a gravação tem um personagem destaque – bem no centro das atenções, um homem louro com cara de bad boy, de bermuda, sem camisa e com um penteado que pode ser facilmente encontrado em filmes sobre os guerreiros vikings.

A câmera de Matthias registra o grandalhão reprimindo um cara, que em certo momento dá um empurrão numa menina que estava a dançar. Em seguida, o protagonista segue o fluxo da passeata performando com imponência, e é mais ou menos nessa vibe que se alonga o “curta”, mais a frente sendo chamado de Technoviking.

No ano seguinte (2001), o autor do vídeo publica o material intitulado “Kneecam No.1” em seu blog pessoal. É esse o ponto de partida para o que viria a ser um dos primeiros memes de que se tem conhecimento no universo virtual. Em 2005 Matthias disponibiliza o arquivo em sua conta do YouTube (que na época era consumido de forma bem diferente comparada à de hoje em dia). A partir disso, internautas começaram a linkar e republicar a gravação de Matthias em outros websites, até que em algum momento, alguém se apossou do material e renomeou-o como “Technoviking”, título que dava enfoque total ao homem desconhecido que aparecia dançando no vídeo. 

Dois anos depois, o boom: o vídeo já era visualizado em praticamente todos os cantos do mundo, e logo começaram a surgir versões modificadas. Technoviking aparecia como personagem de videogame, em letras de música, em estampas de camiseta e tinha até mesmo a versão Technoviking de Chuck Norris. Em 2008, o vídeo alcançou mais de 11 milhões de views. Matthias chegou a receber uma grana pelos anúncios do YouTube, e o autor da track que aparece de fundo já disse uma vez que se soubesse da proporção que essa brincadeira iria tomar, teria garantido seus direitos autorais no início da história toda.

Nos dias de hoje, com a quantidade de vídeos virais a que somos constantemente expostos, talvez o registro de um cara sem camisa, tranças no cabelo e dando uma de bonzão no meio da galera não desperte tanta graça, mas há quase duas décadas as coisas na internet eram diferentes. Numa época em que botões de “like”, “share” e “repost” ainda não eram tão populares, para que algo se tornasse “viral” o conteúdo tinha que ter algo realmente diferenciado a fim de chamar a atenção dos internautas e chegar ao ponto de ser compartilhado milhares de vezes.

Com a repercussão, o próprio criador do vídeo, que já era ligado a estudos sobre a cultura de meme, e outros especialistas em comportamento começaram a analisar, com base em milhares de paródias inspiradas no Technoviking, os motivos que levam as pessoas a se interessarem tanto por um conteúdo como aquele e, além disso, o que estimula a criatividade do público para criar inúmeras versões de uma mesma brincadeira.

A treta é que o Technoviking não virou só meme, estudo de caso e lucro pros bolsos de Matthias Fritsch (que chegou a ganhar uns €$ 10.000 só de anúncios no Youtube em dois anos) – virou também dor de cabeça, depois que o viking berlinense levou a história pra justiça. Em 2009, Fritsch recebeu uma carta dos advogados do homem-sem-nome do vídeo, solicitando a retirada do material e suas variáveis de toda e qualquer mídia, e ainda requerendo uma indenização gorda. 

O fato do Technoviking ter ido parar na justiça causou ainda mais burburinho; além das versões do viking sem camisa continuarem rolando soltas na internet, agora também os mais variados portais de notícia inflamavam o assunto do vídeo que foi de meme ao tribunal. Na opinião de Matthias, se o que o autor do processo queria era “paz”, era mais fácil ter aceitado as inúmeras tentativas de contato pacífico que Fritsch fez em busca de um acordo extrajudicial. Matthias procurou pela figura até mesmo nas academias de ginástica de Berlim, mas nunca encontrou o cara e não teve jeito – em 2013, o caso foi parar no tribunal (que meme complicado…). 

O processo correu durante uns três anos, entre idas e vindas das diferentes perspectivas dos advogados, juízes e demais envolvidos no caso. Do lado do requerente, apelavam para a questão dos direitos pessoais sobre uso de imagem sem autorização. Do lado do acusado, a defesa era que a gravação não havia sido feita e publicada inicialmente com qualquer intenção comercial, mas sim pelo viés artístico e conceitual.

Inclusive, se ao assistir do vídeo original você já se perguntou por quê a galera dançando e até mesmo o cara sem camisa andam em direção à câmera, gerando dúvida se o filme é fruto de um roteiro ou algo espontâneo, eis a explicação de Matthias: ele estava gravando sentado na parte traseira do caminhão de som da festa de rua; ou seja, os participantes não estavam seguindo o cinegrafista, eles estavam seguindo a música

Além disso, Fritsch e seus intercessores legais também recorriam justificando que o meme Technoviking, especificamente, foi um fenômeno criado pelos usuários da internet, e não propriamente pelo autor da filmagem. No fim das contas, a decisão da corte foi que Matthias só poderia utilizar as imagens de modo que o “viking” ficasse irreconhecível, e que teria que pagar ao autor da ação cerca de €$ 13.000 (lá se foram os 10 mil euros recebidos do Youtube, isso sem contar os gastos com advogados e outros tributos).

Após o desfecho do caso, Matthias Fritsch iniciou uma campanha de crowdfunding a fim de contar sua versão da história através de um documentário. “The Story of Technoviking” foi lançado na internet em 2015, de forma gratuita, e nele o autor especula mais a fundo, junto a outros especialistas, sobre fenômenos digitais tais como o Technoviking. 

Trazem ao debate sobre a necessidade de adequação nas leis de direitos autorais, de acordo com a realidade do mundo digital atual, e também da readaptação social diante o avanço das tecnologias e da vida virtual. Muitas leis dos anos 2000 provavelmente não condizem com a realidade das décadas seguintes, num universo digital onde o usuário tem uma autonomia desenfreada de criação e disseminação de quaisquer tipos de informação. 

Para conhecer ainda mais a fundo a história e discussões sobre o caso Technoviking, vale a pena assistir o documentário que retrata como tudo aconteceu.

Fotos: technoviking.tv

TEXTO: ANNABEL GRIGNET

Redatora oficial do Cognição Eletrônica, jornalista inquieta, discente em Música pela UNILA e foliã na cena eletrônica da fronteira de Foz do Iguaçu.