Theremin – O Avô dos Instrumentos Eletrônicos

História

O “Theremin”, ou em português, “teremim”, é um dos primeiros instrumentos completamente eletrônicos da história da música. Talvez muitos ainda não tenham ouvido falar neste aparelho, mas é quase certo que já tenham ouvido os sons espaciais do Theremin em diversas composições musicais por aí.

O equipamento leva o nome de seu criador, o russo Léon Theremin (nome verdadeiro Lew Sergejewitsch Termen), e foi inventado pelo físico por volta de 1920, na antiga União Soviética. Em 1930 Léon também participou, ao lado do compositor americano Henry Cowell, da criação da primeira bateria eletrônica do mundo: a Rhythmicon. O instrumento foi fundamental para o desenvolvimento das mais bem sucedidas drum machines da história, como a Roland TR-808 (final da década de 80).

Com um desenho minimalista e uma forma de execução totalmente à parte dos instrumentos convencionais, o som monofônico e agudo do Theremin é produzido pela combinação de dois osciladores de radiofrequência. Possui ondulações bem marcadas e timbres inconfundíveis, similares a vozes femininas do tipo soprano quando entoam óperas. O resultado é algo que parece ter vindo direto de orquestras interplanetárias.

Sua execução parece mágica – não requer toque humano, mas apenas movimentos de mãos próximo às duas antenas que compõem o instrumento. Essa dança de mãos e dedos gera um campo eletromagnético que é transformado em sons trêmulos e intensos.

O sons espaciais do Theremin apareceram pela primeira vez no cinema russo em 1930, no filme Odna, com trilha composta por Dmitri Shostakovich, compositor neoclássico. Na década seguinte, Hollywood passou a incorporar melodias feitas com o instrumento, principalmente em filmes de terror psicológico. A estética vibracional das sonoridades extraídas do Theremin eram utilizadas para dramatizar cenas em que os personagens apresentavam alguma espécie de crise psicológica, dando a impressão de que o que se passava na mente dos protagonistas era semelhante à música da trilha – algo oscilante.

Nos primeiros anos após a invenção do instrumento, alguns musicistas da época chamaram atenção por terem se dedicado à prática do Theremin. Entre eles, Alexandra Stepanoff, que executou o equipamento na rádio NBC em 1930; e Clara Rockmore, que levou o Theremin muito a sério. Rockmore deixou um dos principais legados sobre as técnicas para aprimorar a execução do instrumento, já que para alcançar certa harmonia melódica apenas “tocando o ar”, é preciso, além de prática e boa base teórica, uma boa consciência corporal.

Clara foi uma das responsáveis por apresentar o Theremin ao mundo, se apresentando em diversas ocasiões. Alguns registros dela tocando são de arrepiar; parece que ela realmente toca cordas invisíveis, coisa de outro mundo. Lançou um único álbum, intitulado “The Art of The Theremin”, com músicas clássicas e produzido por seu amigo e pioneiro na música eletrônica, Robert Moog (inventor do sintetizador Moog).

No Brasil, o responsável por trazer o Theremin foi o músico e professor Max Wolfson, que se apresentou com o instrumento no Teatro Sant’Ana em São Paulo, em 1931. A apresentação de Max foi registrada numa crônica escrita por Mário de Andrade, famoso poeta, músico e crítico literário brasileiro. Mário comentou no relato que, apesar da limitação do instrumento em possuir apenas dois timbres, no quesito grave o som se assemelhava muito ao do violoncelo, e no agudo, aos de um violino. O poeta também coloca o Theremin ao lado de outros instrumentos musicais, mas deixa claro sua opinião de que ele jamais substituiria uma orquestra convencional.

Apesar de sua impopularidade, o Theremin ainda é apreciado por compositores e produtores que gostam de explorar lados mais experimentais da música. É o caso de Mezerg, que inseriu a invenção dos anos 20 em meio a outros instrumentos modernos e fez uma baita performance, onde a música e expressões artísticas físicas se tornaram uma só.

Coralie Ehinger, por sua vez, trouxe o Theremin num momento especial com a música, quando criou uma melodia com os sons do instrumento eletrônico, outros sintetizadores e o toque especial dos sons das batidas do coração de seu bebê que ainda estava em seu ventre. Outros artistas também aderem às vibrações intergalácticas do Theremin, como SHTUBY, Days of Delay e Paul Cousins.

Ao longo do tempo, a estética do Theremin se modernizou, acompanhando a evolução de designs mais sofisticados, e é fácil encontrar modelos diferentes à venda, difícil mesmo é o preço! Entre os Theremins da Moog, uma das marcas mais populares, os preços variam de 300 a 700 dólares. Aqui no Brasil, por mais inusitado que pareça, também temos um produtor do instrumento, a RDS Theremin — uma empresa de Belo Horizonte – MG, que fabrica Theremins semi-artesanais desenvolvidos a partir do mesmo esquema eletrônico utilizado no modelo Etherwave, da Moog. Entre as opções disponíveis estão uma mais básica, no valor de R$ 380, e uma mais próxima do modelo clássico do instrumento, no valor de R$ 1.100,00.

A primeira aluna de Léon Theremin nos Estados Unidos foi Alexandra Stepanoff, uma ex-cantora de concertos russa que se mudou para Nova York no final dos anos 20.

Desde a época de sua criação e até hoje, o instrumento não é levado tão a sério por alguns especialistas, talvez em virtude do instrumento ser um equipamento com recursos “invisíveis” e totalmente eletrônicos. Mas esta é uma discussão que também vagueia sobre outros equipamentos eletrônicos, onde uns reconhecem equipamentos eletrônicos tanto quanto os convencionais, enquanto outros menosprezam a ideia de que dispositivos musicais altamente tecnológicos possam ser considerados de fato instrumentos.

Quem sabe esta recusa esteja atrelada à errônea concepção de que um instrumento musical eletrônico faz tudo sozinho. Mero engano – até o “místico” Theremin requer técnicas manuais de como “encostar no ar” da forma correta.

O violinista precisa saber recostar o arco sobre as cordas do violino. O músico eletrônico precisa saber girar os botões certos. E se o protagonista for o Theremin, seja o artista eletrônico ou não, precisa aprender a dedilhar no invisível.

TEXTO: ANNABEL GRIGNET

Redatora oficial do Cognição Eletrônica, jornalista inquieta, discente em Música pela UNILA e foliã na cena eletrônica da fronteira de Foz do Iguaçu.