10 Momentos em que a Música Eletrônica se Juntou à Clássica

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Ao longo da história, diferentes vertentes musicais já se juntaram proporcionando aos apreciadores dessa arte experiências sensacionais e, até certo momento, inimaginadas. Quando falamos de música eletrônica e logo de música clássica, ambos gêneros carregam muita coisa em comum, além do fato de serem formas de expressão musical extremamente potentes. 
Talvez um dos pontos principais tanto da dance music quanto da classic music seja o foco no instrumental, não requerendo propriamente a inserção de vocais ou letras (embora estes sejam bem-vindos, trazendo ainda mais brilho às melodias em algumas ocasiões). Bem por isso, esses dois estilos musicais, apesar de terem suas fundações em épocas completamente distintas, carregam o poder intrínseco de fazer com que seus ouvintes se concentrem em aspectos mais profundos da obra, internalizando muito mais a experiência musical, do que dando atenção a significados pontuais de letras, por exemplo. 
Muita gente talvez se espante ao saber que inúmeros DJs e produtores de música eletrônica, além de dominarem mixers, CDJs e sintetizadores, também mandam ver na instrumentação acústica – artistas bem conhecidos na cena tocam guitarra, piano, bateria, instrumentos de sopro e por aí vai. E o contrário também existe: musicistas famosos, geralmente vistos em palcos de orquestras, também têm seu lado experimental dedicado ao lado “sintético” da coisa. 
Provavelmente por essa proximidade entre o tradicional e o moderno é que a junção de música eletrônica com clássica geralmente dá bastante certo, resultando em formas diferentes de curtir os dois gêneros musicais, com mais profundidade, com um novo brilho, percebendo os sons de um jeito inédito. 
O eletrônico já se fundiu ao clássico inúmeras vezes ao longo dos anos, e compartilhamos a seguir 10 momentos pra lá de marcantes, onde o apego ao “tradicional demais” e ao “moderno demais” foram deixados de lado, permitindo a reinvenção de formas surpreendentes de se vivenciar a música. Dá pra viajar legal!

1. Daniel Kuhnen e Camerata Florianópolis – Azzurra (Gui Boratto)

Brasil (2015)

Pra deixar claro o orgulho pelos artistas brasileiros fazendo história, começamos pelo registro da união entre o DJ Daniel Kuhnen junto à Camerata Florianópolis, interpretando a track “Azzurra”, do também brazuka Gui Boratto. 

Kuhnen faz parte do Elekfantz, duo musical eletrônico que compartilha com Leo Piovezani. Foram os primeiros artistas que o compositor, produtor e também DJ Gui Boratto assinou em seu selo D.O.C. em 2015. 

A faixa “Azzurra”, composta por Boratto, já tem uma pegada bem melódica em sua versão original, o que foi potencializado sob a regência do maestro Jeferson Della Rocca na apresentação que uniu o clássico com o eletrônico de forma bastante sofisticada.

2. Jeff Mills e Orquestra Sinfônica de Avignon Provence – Flying Machines

França (2019)

Jeff Mills é um nome tão clássico no universo da música eletrônica quanto a música clássica, em si, é para a história da música. O cara já participou várias vezes de momentos inusitados onde os sons eletrônicos se fundiram ao que há de mais tradicional na instrumentação acústica. 

“Flying Machines”, faixa de Mills no álbum “Sequence (A Retrospective of Axis Records)”, carrega características já bem conhecidas do estilo sonoro do produtor – tons sóbrios, uma melodia um tanto quanto linear e um toque meio “alienígena”, que talvez seja uma das formas mais aproximadas para descrever os sons de Jeff Mills. A execução de Flying Machines com os beats somados aos instrumentos da Sinfônica de Avignon Provence, no festival francês Chorégies d’Orange de 2019, potencializou ainda mais a ambiência exótica da música de Mills. 

“The Wizard” (o mago), como é chamado pelos fãs, tem outros momentos com a música clássica que vale a pena conhecer: a track “The Bells”, um de seus maiores hits, também reproduzida com a orquestra de Avignon; e o concerto completo com a Montpelier Philharmonic Orchestra (este último, com capacidade de transportar o ouvinte para um mundo imaginário de ficções de cinema).

3. Laurent Garnier no Victoires de la Musique

França (1998)

Ainda sobre os momentos mais clássicos (literalmente), não tem como não lembrar da noite em que Laurent Garnier deixou os críticos com o queixo no chão. Em 1998, o DJ que é uma das maiores referências na dance music se apresentou no “Victoires de la Musique”, uma das cerimônias de premiação musical mais tradicionais da França. 

Seria a primeira vez que o evento teria uma categoria especialmente dedicada à música eletrônica, e antes de Laurent “dar o show que deu”, há relatos de que houve muita crítica e preconceito em relação à dance music num palco tão clássico como aquele. Garnier, cheio de atitude, foi lá e fez. De quebra, além de embasbacar os mais críticos, levou pra casa o prêmio de sua categoria. Toma essa!

4. Black Rock Philharmonic no Burning Man

Estados Unidos (2019)

Não são só os protagonistas da cena e-music que se deslocam até os palcos da música clássica – a música clássica também se transporta para os palcos eletrônicos. Em 2019, muitos participantes do Burning Man puderam dar de cara (ou de ouvido) com uma das composições mais icônicas da história do cinema, enquanto o grupo Black Rock Philharmonic tocava a “Abertura 1812”, do russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky. 

A BRP (Black Rock Philharmonic) é composta por músicos que se reúnem especialmente para as edições do Burning Man, e tem vários registros legais de sua passagem pelo festival desértico, interpretando composições classissíssimas da música internacional. Dá um check no público acompanhando em coro a versão de “Bohemian Rhapsody”, do Queen, também em 2019. Fica difícil escolher qual ocasião é mais especial.

5. Marc Romboy & Dortmund Philharmonic Orchestra – Boiler Room Live Performance

Alemanha (2016)

Esse é pra viajar sem sair do lugar. 

O Boiler Room, representado na ocasião pelo DJ alemão Marc Romboy, e a Dortmund Philharmonic Orchestra, se uniram para dar vida a uma das mais belas parcerias entre música tradicional e a modernidade da música eletrônica. No concerto realizado no esplendoroso teatro Konzerthaus Dortmund, Romboy e a filarmônica recriam obras de Debussy, compositor francês e um dos contribuintes mais importantes da música de caráter clássico. O resultado é surpreendente. Compensa prestigiar a apresentação do início ao fim.

6. Worakls Orchestra no Château La Coste (Cercle)

França (2019)

O lado mainstream da parada também tem momentos fantásticos da música clássica com a eletrônica. O Cercle é um projeto conhecido pela produção de eventos voltados à dance music em locações inusitadas – castelos, montanhas e outras construções históricas já foram cenário das experiências proporcionadas por eles. 

Em 2019, o público (presente e virtual) foi prestigiado com uma megaprodução no Château La Coste, um complexo ao sul da França, que integra centro de arte, hospedagem, natureza e uma paisagem fantástica. A apresentação da vez ficou por conta de Worakls (Kevin Rodrigues), que junto à Fourvière Orchestre fez o pavilhão de música em meio aos vinhedos do château (castelo) virar o palco de uma espécie de “rave clássica”. Muita finesse envolvida!

7. Derrick May no Weather Festival Opening – Strings of Life

França (2015)

O próprio maestro começa o show com um sorriso de orelha à orelha, agitando a batuta na mão num entusiasmo que faz os mais leigos duvidarem se os musicistas estavam realmente seguindo suas orientações orquestrais. O pianista dedilha as teclas com tamanha energia que o faz executar a peça inteira de pé, se entregando de corpo e alma (literalmente) às batidas de um DJ concentrado. Percussionistas, violoncelistas, trompetistas e tudo mais que esteve no palco durante a abertura daquele Weather Festival, se envolveu com a atmosfera fascinante que se formou na performance de Strings of Life, música do americano Derrick May. 

É um dos momentos entre o clássico e o eletrônico que dá vontade rever centenas de vezes, só pelo prazer de testemunhar a empolgação de toda galera em cima do palco (e fora dele também).

8. Super Flu & Dortmunder Philarmoniker – Volkwein

Alemanha (2014)

Mais uma combinação da Dortmunder Philarmoniker com a e-music que deu certo (acabamos de falar sobre a orquestra num dos tópicos acima, no rolê do Marc Romboy). 

Dessa vez, é a dupla Super Flu que sobe no stage com a orquestra pra mostrar à plateia a versão inovadora de Volkwein, faixa produzida em conjunto por Felix Thielemann e Mathias Schwartz (Super Flu) e pela filarmônica de Dortmunder. O produto final dessa união é, no mínimo, profundo. Imagine poder apreciar esse showzaço ao vivo!

9. Francesco Tristano & Carl Craig – The Melody

França (2008)

Do lado eletrônico, Carl Craig –  nome poderoso na cena eletrônica global; não é preciso muitos anos de estrada nas pistas de dance music pra ter escutado falar do DJ americano ao menos uma vez. Do lado clássico, Francesco Tristano – pianista e compositor luxemburguês que flerta tanto com a música tradicional quanto com a música eletrônica experimental. 

E ainda bem que esses dois se encontraram em certo ponto do percurso, porque o registro de Craig mandando ver nas controladoras e Tristano destruindo (no bom sentido) as notas da faixa “The Melody” no piano, é um dos encontros mais emocionantes entre a música eletrônica e a música clássica. 

Para quem quiser ver o concerto completo “Carl Craig presents Versus”, é só clicar aqui.

10. Tribute to Keith Flint – The Prodigy Orchestra Medley

Reino Unido (2019)

Por último – e não menos importante, mas sim talvez o mais comovente-, uma honrosa homenagem para um dos artistas precursores da cena “rave” na década de 90. 

Keith Flint foi o vocalista principal da banda britânica The Prodigy, colecionadora de várias músicas de sucesso ao longo da carreira – com certeza você já ouviu hits do The Prodigy em rádios ou em trilhas de filmes; “Breathe” é um bom exemplo.

Keith foi encontrado morto em sua residência em março de 2019, em decorrência de suicídio, segundo exames realizados. Para saudar a vida do artista e perpetuar sua contribuição para o mundo da música, a Kaleidoscope Orchestra, sob a regência de Steve Pycroft, reproduziu algumas das obras mais clássicas de Keith junto ao The Prodigy, da forma mais clássica possível.

Se ao final desta matéria a música também te deixou arrepiadx, acompanhe o Cognição Eletrônica para mais conteúdos como este.

TEXTO: ANNABEL GRIGNET

Redatora oficial do Cognição Eletrônica, jornalista inquieta, discente em Música pela UNILA e foliã na cena eletrônica da fronteira de Foz do Iguaçu.